terça-feira, agosto 22, 2017

Vitória e Sporting de Braga

O meu artigo desta semana no Duas Caras.

Como vitoriano quero ganhar sempre ao Braga.
Em futebol e em todas as outras modalidades que ambos pratiquem.
Jogo oficial,jogo particular,treino ou seja lá o que for.
É o adversário sobre o qual os triunfos dão mais prazer e as derrotas mais aborrecem.
Acredito que em Braga se passa precisamente o inverso no âmbito da maior e mais antiga rivalidade de Portugal.
Porque enquanto as rivalidades entre os três estarolas (SLB/FCP/SCP) tem umas dezenas de anos, e existem entre dois clubes da mesma cidade ou perante um clube a 300 klm de distância,a existente entre Vitória e Braga tem quase mil anos e tem muito mais substância que os efémeros sucessos desportivos!
Porque antes de ser (ou seja antes de os clubes existirem) já o era.
Entre duas comunidades vizinhas que há muitas centenas de anos são rivais e das quais Vitória e Braga são hoje apenas a face mais visível dessa milenar rivalidade.
Nos últimos anos, lamentavelmente,essa rivalidade desportiva entre dois dos maiores clubes de Portugal tem descambado em algumas manifestações de violência que nada tem a ver com o desporto ou até com a tal rivalidade.
São manifestações que não fazem sentido em contexto nenhum, menos ainda no desportivo, e que envergonham as duas comunidades e a esmagadora maioria dos adeptos de ambos os clubes.
É necessário mudar.
Permitir que mantendo uma acesa rivalidade desportiva os estádios D.Afonso Henriques e “Pedreira”não se transformem em recintos de terror para os adeptos visitantes como tem acontecido com alguma frequência perante a passividade das autoridades e a justiça vesga (só veem incidentes em Guimarães) das entidades jurisdicionais do futebol.
Do meu ponto de vista devem ser as direcções dos dois clubes a darem passos nesse sentido, sinceros e profícuos, de molde a que a normalização das relações não se fique por inócuos apertos de mão televisionados mas sem qualquer outra consequência prática.
Podem e devem fazê-lo.
Se não o fizerem então terão de ser encontradas outras formas de permitir que os vimaranenses vão a Braga e os bracarenses venham a Guimarães,ao futebol, de forma pacifica e preocupando-se apenas com as incidências do jogo.
Vitória e Braga serão sempre rivais.
Dentro dos relvados, dos pavilhões, das piscinas.
Mas tem de se entender em tudo o resto.
Nomeadamente na LPFPem questões relevantissimas para as duas colectividades.
  • Repartição dos dinheiros das televisões através da negociação centralizada dos mesmos.
  • Reformulação das competições.
  • Equipas B.
  • Regulamento da Taça da Liga.
  • Limites de endividamento dos participantes em competições profissionais.
  • Tectos salariais para jogadores e treinadores.
  • Limite de estrangeiros por equipa e plantel.
  • Proibição absoluta de estrangeiros nos escalões de formação.
  • Limite ao empréstimo de jogadores a clubes do mesmo escalão.
  • Exigência de sorteios das competições iguais para todos.

E mais algumas questões que seria fastidioso enumerar aqui.
Vitória e Braga tem de saber utilizar a rivalidade entre ambos de forma inteligente.
Fazendo dela motor de crescimento de ambos os clubes para que sendo mais fortes tenham mais peso no futebol e possam fazer frente, de forma cada vez mais consistente,aqueles que são os nosso verdadeiros adversários.
Benfica ,Porto , Sporting e todo o "sistema" montado para a defesa e promoção desses três clubes.
Nas televisões,nas rádios,nos jornais,na Liga, na arbitragem, na disciplina,etc.
Esgotarmos-nos na conflitualidade e na violência apenas nos enfraquece e faz o jogo daqueles que não querem que sejamos adversários ao seu nível.
Hoje parece-me claro que só há dois clubes em Portugal-Vitória e Braga- capazes de acabarem com o “ordem” instituída e trazerem ao nosso futebol mais competitividade, mais interesse, mais verdade desportiva.
Tem é de fazer por isso.
E manda a verdade que se diga que na última dúzia de anos, ao contrário das muitas décadas anteriores, o Braga tem feito mais por isso do que um Vitória mergulhado em crises cíclicas que permitem que o actual presidente bracarense já tenha conhecido quatro presidentes do Vitória.
Para mim, e creio que para uma esmagadora maioria de vitorianos,não há problema nenhum que o Braga seja vice campeão nacional.
Desde que o Campeão seja o Vitória.
Como acredito que em Braga muita gente pensará o mesmo desde que se invertam os pressupostos.
E é por aí o caminho.
Por uma rivalidade que fortaleça ambos os clubes, sem os excessos a que urge por termo, e permita por tabela fortalecer o nosso futebol.
Haja vontade!

segunda-feira, agosto 21, 2017

Descalabro

Sou por natureza optimista e por isso quando o Vitória entra em campo, seja qual for o adversário, acredito sempre que vai ganhar o jogo com maior ou menor dificuldade pese embora todas as dificuldades que lhe possam aparecer.
É uma convicção baseada uma vezes na Razão, outras na Fé e outras ainda num misto das duas.
No passado sábado, e pese embora uma réstia de esperança que sempre existe, entrei no nosso estádio (e quem comigo falou antes do jogo sabe bem disso) muito pouco optimista quanto ao desfecho do jogo com o Sporting.
Pela diferença qualitativa das equipas, pela pré temporada que ambas fizeram (não sei se alguém levou muito a sério o jogo treino que lhes ganhamos por 3-0...) e pela forma como ambas tinham entrado no campeonato.
Quis a sorte do jogo, que também dele faz parte, que no primeiro remate à baliza o SCP fizesse um grande golo que moralizou pela espectacularidade do mesmo e por ter sido tão cedo condicionando desde logo o desenrolar da partida.
Depois, num monumental acesso de ingenuidade da nossa defesa, o Sporting teve um livre na linha de fundo e o cruzamento apanhou Bas Dost (aquele rapaz que foi o melhor marcador do ultimo campeonato) completamente à vontade no centro da nossa área para cabecear para onde quis.
E dois minutos depois, em mais uma "balda" da nossa defesa os "leões " fizeram o 3-0 decorridos apenas vinte e três minutos de jogo!
Um pouco como na época anterior.
E aí alguns dos meus habituais companheiros de bancada recordaram logo esse jogo com a esperança de que a história se repetisse este ano e o Vitória conseguisse outra recuperação épica.
Tive de lhes recordar duas coisas:
Uma é que a História repete-se quando tem de ser e não quando nos dá jeito.
A outra é que havia pelo menos três razões a obstarem a essa repetição.
Chamadas Marega, Soares e Hernâni. Que já cá não "moram".
Pelo que era com os que estavam em campo e no banco que ia ter de ser feita alguma coisa para inverter o rumo dos acontecimentos sob pena de uma derrota por números humilhantes.
Acontece que a perder por três golos, aos 23 minutos de jogo, Pedro Martins demorou 35 (!!!) minutos a mexer na equipa o que equivale a dizer que para o adversário nada mudou e portanto havia que gerir tranquilamente o jogo porque "aquele" Vitória estava visto que não dava para mais.
É certo que no banco para além de Douglas estavam três jogadores da equipa B (Kiko,Magalhães e Sueliton) mais os que viriam a ser utilizados mas esse é "conto" para outra ocasião porque certamente não foram os adeptos que formaram o plantel, dispensaram Valente,João Afonso, Alex, pelos vistos Tozé e contrataram os três reforços (Estupinám,Francisco Ramos e Ruben Oliveira) que nem no banco se sentaram.
E com a vida facilitada pela inércia de Pedro Martins( e pela gritante falta de soluções no plantel vitoriano) o Sporting lá fez mais dois golos, viu Miguel Silva negar-lhe mais três claras ocasiões, esbarrou uma bola na trave e ainda viu dois jogadores seus falharem duas claras oportunidades atirando muito por alto.
Podia ter sido um massacre.
E por isso no fim do jogo os adeptos, incansáveis no apoio durante os 90 minutos , manifestaram o seu desagrado, a sua tristeza e revolta por uma derrota humilhante, uma exibição paupérrima e umas sombrias perspectivas do futuro próximo.
Em que vamos a Paços de Ferreira, recebemos o Boavista e vamos a Braga!
Faltam dez dias para o fecho do mercado.
E sem querer ser pessimista, porque nunca o sou, vejo as coisas a complicarem-se face à carência de reforços e ao pouco tempo para os contratar de forma ponderada e sem precipitações.
Suportando a desvantagem de ter de ir ao mercado em estado de carência o que é sempre aproveitado por quem quer fazer negócios connosco.
Com duas certezas:
Uma é que houve muito tempo para fazer o que não foi feito.
 A outra é que faça-se o que se fizer para estas duas derrotas pesadíssimas (0-3 no Estoril e 0-5 com o Sporting) já não há remédio.
Enfim...
Depois Falamos

Casa Branca


Calor


Exigência

O meu artigo desta semana no zerozero.

Quando me comecei  a interessar pelo futebol nos meus seis ou sete anos de idade, ou seja há
meio século atrás, a realidade que o rodeava era diferente em quase todas as perspectivas pelas quais se pudesse encará-lo.
É certo que já havia a mania dos chamados “grandes” que eufemisticamente se dizia serem quatro(Benfica , Sporting, Porto e Belenenses), por serem aqueles que tinham ganho campeonatos, mas que na realidade eram apenas dois – Benfica e Sporting- porque o Porto nesses tempos esteve vinte anos sem ser campeão ( e até então poucos campeonatos tinha ganho) enquanto o Belenenses em bom rigor não contava para nada em termos de titulo porque depois do ganho nos anos quarenta jamais voltaria a terminar um campeonato no primeiro lugar.
E todas as narrativas se construíam em volta desses clubes.
Os jornais desportivos eram quase todos de Lisboa (Bola, Record, Mundo Desportivo) com a honrosa excepção do “Norte Desportivo”, publicavam-se três dias por semana, e enchiam as suas páginas com os dois clubes lisboetas deixando para os outros o pouco espaço que restava e tratando-os com muito pouco rigor.
Os jornais de informação generalista, que eram então muitos mais do que hoje, alinhavam pelo mesmo diapasão embora aqueles que se publicavam no Porto (JN, Primeiro de Janeiro e Comércio do Porto) dessem mais alguma atenção aos clubes nortenhos mas reservando a parte de “leão” para o Futebol Clube do Porto e o Leixões dando muito pouco espaço aos outros.
Em termos de rádio o panorama não era muito diferente, com a programação desportiva a assumir pouca relevância, embora aos domingos com os jogos todos à mesma hora tivessem os relatos em cadeia com os relatadores principais nos jogos dos clubes do costume e dos outros apenas se ouvia a constituição das equipas, os golos e um curto comentário final.
A RTP, única estação televisiva existente, tinha um programa semanal (até dá vontade de rir comparando com a actualidade) chamado “Domingo Desportivo” que emitia ao fim da noite desse dia em  que dava os resultados dos jogos da primeira divisão e os resumos de dois deles.
Escusado será dizer queque a esmagadora maioria desses resumos eram de jogos de Benfica e Sporting, uma vez por outra do Porto e os restantes clubes apenas apareciam quando jogavam com esses clubes.
Ainda hoje me recordo bem, pela excepcionalidade de que se revestiu, quando num desses programas e depois o resumo de um jogo do Benfica com a Cuf o jornalista Alves dos Santos (grande nome do nosso jornalismo desportivo) anunciou o resumo do Barreirense-Tirsense!
Foi um espanto!
Era o que tínhamos.
E dentro do que tínhamos havia um claro proteccionismo aos dois clubes de Lisboa em termos de análise desportiva dos jogos porque a totalidade (ou quase) dos jornalistas eram-lhes afectos e portanto branqueavam despudoradamente todos os favores, fretes e benefícios de que dispunham com total à vontade.
O que em boa verdade também convinha ao regime vigente que usava e abusava do futebol e das grande equipas que o Benfica (mais) e o Sporting (menos) então tinham como forma de propaganda do regime.
Acresce a isto o facto de não tendo então o país as vias de comunicação que tem hoje era muito mais difícil os adeptos acompanharem as equipas porque às distâncias somavam-se as más estradas com todas as dificuldades que isso acarretava em termos de deslocação massiva de pessoas a acompanharem as suas equipas.
Claro que tendo mais adeptos em todo o país do que os outros (o tal atraso cultural de que Portugal não se livra) os dois clubes de Lisboa não sentiam esses problemas porque tinham nos estádios sempre um número significativo de adeptos (muitos dos quais nunca em Lisboa tinham posto os pés) enquanto os outros quando jogavam fora jogavam praticamente sem apoio pelo tal problema das distâncias e das vias de comunicação.
Pese embora me recordar, mesmo nesse tempo, de grandes deslocações de vitorianos a Coimbra, a Aveiro, a S.João da Madeira ou a Tomar.
Passados cinquenta anos quase tudo mudou.
Televisões, redes sociais, internet, auto estradas, estádios com outras condições, horários diferenciados dos jogos, rádios locais, múltiplos programas desportivos nas televisões e rádios, edições diárias dos jornais desportivos, jornais digitais, sites especializados (como o zerozero) , transmissão em directo de quase todos os jogos da Liga (e a caminho de serem mesmo todos) é todo um mundo de coisas diferentes.
Algumas permanecem iguais, infelizmente, como o favorecimento do “sistema” a agora três clubes (o Porto desde a década de oitenta também entrou nesse clubes restrito) , a escandalosa protecção que a comunicação social lhes dá ou os adeptos de sofá que apoiam clubes que nada lhes dizem em termos da suas Terras apenas e só porque ganham mais vezes que os outros!
Mas o resto mudou.
E por isso hoje os adeptos são mais informados, mais exigentes, menos tolerantes com o “produto” que lhes é posto no “prato”.
Seja no jogo jogado, seja nos negócios que o envolvem, seja na cobertura jornalística que é feita em seu redor.
E esse é um problema a que as instâncias do futebol português estão a responder a velocidades diferentes; muito bem a FPF, que hoje está na vanguarda do que melhor se faz a nível de futebol internacional, e muito mal a Liga que se transformou num reduto dos velhos usos e costumes, dos velhos privilégios dos “donos disto tudo”, da vontade mexer no acessório para manter o essencial.
Veremos como se pode(se é que s pode…) conciliar a exigência em crescendo do público com a pouca ou nenhuma vontade reformista de algumas instâncias do nosso futebol da Liga à comunicação social passando pelos clubes.
Uns por acção no sentido de manterem o “status quo” e outros pela omissão dos que calando…consentem!

sexta-feira, agosto 18, 2017

Barcelona

O terrorismo seja sob que versão for e seja qual for a justificação(!!!) é absolutamente repugnante e deve ser denunciado e combatido sem qualquer contemplação.
Desde o 11 de Setembro de 2001, com o ataque às torres gémeas, que o alvo dos terroristas é cada vez mais a matança indiscriminada de civis utilizando para o efeito todo o tipo de armas e engenhos que vão dos aviões aos automóveis e camiões passando por explosivos, bombistas suicidas e sabe-se lá que mais.
O rasto de morte é já muito longo.
Paris, Nairobi, Londres, Nice,Manchester, Madrid e outras cidades onde o braço longo do terror se fez sentir.
Agora foi Barcelona.
Um ataque que me chocou particularmente porque Barcelona é seguramente a cidade não portuguesa que melhor conheço fruto das dezenas de vezes que lá estive.
E o lugar do ataque, as emblemáticas Ramblas, é lugar de passagem quase obrigatória de cada vez que vou à cidade condal porque é uma avenida magnifica com uma vida e uma atractividade muito próprias que a tornam verdadeiramente única.
O mundo está cada vez mais perigoso como todos sabemos.
E quando os atentados, os crimes, os efeitos do terrorismo chegam a locais que conhecemos por experiência pessoal, e não apenas por os vermos na televisão, a sensação de insegurança e a convicção de que os Estados tem de combater o terrorismo de forma implacável aumentam em proporções idênticas.
Depois Falamos

Farol


Pelicanos


terça-feira, agosto 15, 2017

As Rádios Locais

O meu artigo desta semana no Duas Caras.
A década de 80 do século passado trouxe à comunicação social portuguesa a maior revolução da sua História com a aparição por todo o país de um fenómeno chamado “rádios locais” e que rapidamente se implantou de norte a sul do país com as novas emissoras a surgirem como cogumelos um pouco por todo o lado.
Num panorama comunicacional que em que havia apenas dois canais de televisão da RTP (as televisões privadas surgiriam pouco depois) e duas rádio nacionais  que eram a RDP (com vários canais) e a Rádio Renascença que também emitia através da RFM, o surgimento das então chamadas “rádio piratas” por operarem sem qualquer licenciamento foi uma brutal lufada de ar fresco depois da qual nada ficou como dantes.
Da TSF, que se transformou numa rádio nacional de referência, à mais modesta rádio local foram um espaço de inovação, de fazer diferente, de revelar talentos que depois em muitos casos viriam a fazer carreira nos grandes orgãos de comunicação nacional.
Sem meios financeiros, com meios técnicos inicialmente débeis, com enormes dificuldades em serem reconhecidas pelos diversos poderes, dos autárquicos aos nacionais, sem acesso (na esmagadora maioria dos casos) a ferramentas de informação como era então o telex (muitos dos que lerão isto nem sequer terão visto um aparelho desses na vida) os colaborados das rádios locais nao tiveram vida fácil e recorrerem à imaginação, à arte de desenrascar, ao superarem com trabalho o que lhes faltava em termos de meios foi a única solução para fazer os projectos radiofónicos andarem para a frente.
Obviamente, é da vida, que muitos desses projectos ficaram pelo caminho ou porque não foram licenciados quando o governo de então, e bem, resolveu impor ordem no panorama radiofónico ou porque os projectos em si não eram suficientemente fortes para se manterem passado o entusiasmo inicial da sua caminhada.
Hoje, também por força da internet, das redes sociais, das rádios digitais, das televisões privadas, dos inúmeros canais por cabo, das dificuldades económicas que o país, e por tabela as empresas, enfrentaram e que se reflectiu fortemente no mercado publicitário que é o único sustento das rádios (pelo menos em termos legais…) muitas delas fecharam portas ou encontram-se em estado quase vegetativo por falta de meios financeiros.
Creio ser, com grande pena minha que sempre fui um entusiasta das rádios locais e colaborador de algumas deles desde a primeira hora, um declínio irreversível face ao contexto em que operam e à feroz concorrência que enfrentam por parte de outros meios de comunicação publicitariamente muito mais apetecíveis.
E o caminho que lhes resta em alguns casos, até para sustentarem estruturas “pesadas” para a realidade dos tempos que correm, é o encostarem-se literalmente aos poderes, nomeadamente os autárquicos, porque deles provém sempre um razoável caudal de publicidade e não só que permite ir aguentando o “barco” durante tanto tempo quanto for possível.
Claro que o preço dessas “ligações perigosas” paga-se em termos de credibilidade, de isenção, de “favores” que se tem de fazer, da perda de qualquer independência informativa e opinativa nas antenas das rádios que passam a ser pouco mais do que uma caixa de ressonância do poder naquilo que ao poder interessa mesclada de alguma programação atractiva para una vasta camada de ouvintes e que funciona como o “queijo” na ratoeira que atrai os ratinhos para onde o “dono “ da ratoeira quer.
Pessoalmente tive um percurso nas rádios locais de Guimarães, e não só, do qual me lembro com saudade e que constituiu dos tempos mais gratificantes que vivi em termos de colaboração com a comunicação social.
Fui dos primeiros colaboradores da extinta Rádio Guimarães onde juntamente com o Miguel Laranjeiro, o Bento Rocha, o Dino Freitas, o Amadeu Portilha, o Esser Jorge, o José Luís Ribeiro, o Carlos Cerca e tantos outros pusemos de pé aquele que terá sido o mais motivador e desafiante projecto de rádio local que Guimarães alguma vez conheceu.
Durou pouco, é verdade, mas foi muito bom!
Depois colaborei durante anos com a Rádio Fundação, especialmente em programas de debate político mas também na sua equipa desportiva nos primeiros tempos que por lá passei, colaboração que mantive esporadicamente ao longo dos anos,com especial incidência nos últimos três onde a convite do António Magalhães (outro da primeira hora das rádios locais) integrei painéis de debate político onde tive muito gosto em estar, e que cessou o mês passado.
Mas também na Santiago, em programas desportivos e políticos, passei muitas centenas de horas de colaboração que ,também elas, me deixaram gratas recordações pelos excelente momentos vividos e pelas pessoas com quem partilhei antena ao longo de muito tempo
Mas tudo isso é passado.
Passado do qual guardo gratas memórias, passado no qual as rádios locais eram verdadeiras “pontas de lança” da informação, da investigação, do comentário critico aos poderes e do livre debate de ideias.
A par de excelentes programas desportivos, musicais, de entretenimento.
Saudades de um passado que não volta!

Glenfinnan, Escócia


O Beijo da Raposa


segunda-feira, agosto 14, 2017

O 8 e o 80

O meu artigo desta semana no zerozero.

O futebol, como tantas outras áreas da vida em comunidade, tem os seus altos e os seus baixos, os seus momentos de extraordinário entusiasmo mas também de enorme tristeza, os seus picos de exaltação mas também os seus espaços de serenidade.
Em suma tem em si o 8 e o 80 !
Com o início dos campeonatos nos diferentes países podemos ir constatando alguns oitos e alguns oitentas que de alguma forma caracterizarão as competições que terão o seu epílogo lá para a primavera do ano que vem.
Na minha modesta opinião o maior “oitenta” do futebol europeu é a Liga Inglesa que teve este fim de semana a sua primeira jornada.
E que jornada!
Num encontro entre campeões o Arsenal venceu o Leicester por 4-3 depois de um jogo magnifico, com constantes alterações no marcador e incerteza até ao fim numa daquelas partidas que justifica bem o entusiasmo que o futebol merece.
Outro campeão, dos maiores da História da “Premier League”, o Liverpool empatou a três com o Watford de Marco Silva num belo jogo de futebol.
Outros dois campeões, os grandes rivais de Manchester começaram a prova de forma categórica com o City indo vencer a Brighton enquanto o United, de José Mourinho, despachava o West Ham de forma categórica com quatro golos sem resposta.
O campeão em titulo, Chelsea, esse começou a prova perdendo em casa com o Burnley depois de um jogo muito disputado em que os visitantes conseguiram superiorizar-se vencendo pro três bolas a duas.
Quanto ao  vice campeão Tottenham foi vencer a casa do histórico Newcastle, este ano regressado à principal divisão, demonstrando também ele estar na corrida para o titulo deste ano.
E são apenas alguns exemplos, versando as equipas mais conhecidas , do que foi o espectacular início da liga inglesa da temporada 2017/2018 prometendo ser, como sempre, a melhor liga europeia e portanto também a melhor liga do mundo.
Estádios cheios, futebol espectáculo, grandes equipas e grandes jogadores, treinadores de topo (Mourinho, Guardiola, Klopp,Wenger, Conte, etc), jogos de grande incerteza quanto ao resultado, erros dos árbitros que são...erros, terminologia dos comentadores despida de parolices como “os grandes”, sorteios iguais para todos, decisões céleres dos orgãos disciplinares.
E muito dinheiro para os clubes oriundo de contratos televisivos bem negociados, fruto de uma negociação centralizada dos direitos , que devia fazer corar de vergonha os dirigentes de clubes e ligas de outros pontos da Europa.
Mas para além de tudo isso a liga inglesa tem ainda o encanto quase único em termos europeus de ter vários candidatos ao título,meia dúzia no mínimo, que naturalmente dão a todos os jogos um interesse e uma incerteza que alimenta a paixão dos adeptos e o interesse das televisões e patrocinadores.
Este ano enquanto o Chelsea procurará renovar o titulo ganho na época passada de forma brilhante, tem em compita directa consigo um grupo significativo de grandes equipas pertencentes a clubes históricos e que quererão recuperar um titulo que todos eles já venceram noutros tempos.
À cabeça o Manchester City de Pep Guardiola e o Manchester United de José Mourinho que reforçaram a rivalidade típica de dois clubes da mesma cidade com a contratação, na época passada, de dois treinadores que muitos consideram os melhores do mundo e com um largo historial de rivalidade pessoal(não inimizade) construida essencialmente nos tempos em que treinavam Barcelona e Real Madrid
E que para esta época não foram nada parcos na forma como desembolsaram milhões e milhões para reforçarem as suas equipas.
Depois o Liverpool de Klopp.
O clube mais vezes campeão a seguir ao Manchester United mas que há mais de duas década que não vence o titulo e que na sua segunda época dirigido por Jurgen Klopp será certamente uma equipa a considerar nessa disputa.
Mas há também o Arsenal de Arsene Wenger e o Tottenham de Maurício Pochettino que há anos afastados do titulo (os “spurs” desde 1961 !) são competidores a ter em conta face à valia das equipas e ao que tem sido o seu historial nas ultimas épocas.
E depois , convém não esquecer, pode sempre surgir um outsider como o Leicester que duas épocas atrás ganhou o seu primeiro titulo de campeão, de forma categórica, perante a surpresa generalizada do mundo do futebol.
É assim o fantástico futebol inglês.
O verdadeiro “oitenta” do futebol europeu.
Depois há vários “oitos”.
Como naquele país dos campos inclinados, das arbitragens e vídeo arbitragens tendenciosas, dos sorteios que favorecem três “filhos” e discriminam quinze “enteados”, da quase totalidade da comunicação social a ser subserviente, bajuladora e parcial a favor de três clubes, da negociação individual dos direitos televisivos que contribui largamente para o fosso competitivo entre os “filhos “ e os “enteados”, dos insuportáveis programas televisivos em que só os “filhos” tem assento e que servem para pressionar os agentes do futebol em favorecimento dos tais clubes, dos regulamentos absurdos que permitem que o empréstimo de jogadores sirva como forma de condicionar votos na assembleia geral da liga , de uma liga que promove uma taça com um regulamento feito de forma descarada para beneficiar os três do costume, dos dirigentes de quinze clubes que tudo aceitam e tudo votam como os tais três querem por razões que os deviam envergonhar.
Entre muitas outras coisas que justificam que ainda haja “oitos” numa Europa onde há “oitentas”.
Viva a “Premier League”!
Porque naquilo que a sustenta em termos de filosofia desportiva e na concepção de negócio que lhe está subjacente reside muita da esperança de manter o futebol como a mais popular modalidade desportiva do mundo.